sexta-feira, 28 de março de 2008

Poetisando ...

Metade...

Oswaldo Montenegro

Composição: Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
Mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
E que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.


segunda-feira, 24 de março de 2008

Arte: Ação/reação música e encenação

Ópera do malandro Poético - Compilação de Chico Buarque de Holanda
11- Sem fantasia Ouve um bom conselho, ouve e olha-me olhos nos olhos. Ergue o teu cálice de vinho tinto de sangue e brindemos a esse nosso sul sem pecado. Em tangos num qualquer covil, enviámos desejos soprados, gargalhadas de pequenas histórias vividas e pegadas engolidas por tanto mar. O que será que será dos tempos em que não tínhamos juízo? Ontem éramos o herói, como na canção de João e Maria, destemidos. Hoje o faz-de-conta deu lugar ao conta o que fazes e de todas as maneiras a vida vai dar sempre ao mesmo lugar ou aos mesmos lugares. Os bons tempos são gotas d¿água que cristalizam, sem fantasia excepto nos sonhos que são interrompidos pelas nossas mulheres: ¿acorda amor¿. Sentes o cio da terra? De plantar e de ter um filho da terra. Eu homenageio-te, malandro, das palavras sábias : ¿caga nisso, isso vai passar¿. Éramos nós, enquanto duo estreito que cantávamos: vê se a febre te contagia um pouco, pois tu que foste valente, disseste: eu não sonho mais, os sonhos roubam pedaços de mim. Com açúcar e afecto de amigos, tatuaste num milímetro de pele atrás da porta, um espinho cravado na tua garganta. É tempo de construção, disseste. É tempo do papel tomar conta do artista enquanto a palavra se vai levando ao sabor da tinta.
Estás na flor da idade e isso, meu caro amigo, são notícias frescas aqui na Terra


(http://www.top5records.blogger.com.br/)

musica da peça:
1 Bom conselho (com Caetano Veloso) 2 Olhos nos olhos 3 Cálice (com Milton Nascimento) 4 Não existe pecado a sul do Equador 5 Tango do covil 6 Tanto mar 7 O que será (com Milton Nascimento) 8 João e Maria 9 De todas as maneiras 10 Gota d¿água 11 Sem fantasia 12 Acorda amor 13 O cio da terra 14 Homenagem ao malandro 15 Vai passar 16 Tira as mãos de mim 17 Não sonho mais 18 Pedaço de mim 19 Com açúcar e afecto 20 Tatuagem 21 Atrás da porta 22 A rosa (com Djavan) 23 Construção 24 Tempo e artista 25 Vai levando 26 Flor da idade27 Meu caro amigo